domingo, 14 de julho de 2013

REAL REPUBLICA DO DEUZ-DARAH


Deus é um cara gozador
Adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo
Tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado me botar cabreiro
Na barriga da miséria
Nasci brasileiro
Eu sou do Rio de Janeiro
Diz que deu
Dia que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus não dá
Como é que vai ficar, ó nega?
"à Deus dará", "à Deus dará"
Diz que deu
Diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus negar
Eu vo me indignar e chega
Deus dará, Deus dará
Jesus Cristo ainda me paga, um dia ainda me explica
Como é que pôs no mundo essa pobre titica
Vou correr o mundo afora, dar uma canjica
Pra ver se alguém se embala ao ronco da cuíca
Aquele abraço pra quem fica, meu irmão
Deu, dá, dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus negar
Como é que vai ficar, ó nega?
"à Deus dará", "à Deus dará"
Diz que deu
Diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus negar,
Eu vo me indignar e chega
Deus dará
Deus dará
Deus me deu mãos de veludo pra fazer carícia
Deus me deu muitas saudades e muita preguiça
Deus me deu pernas compridas e muita malícia
Pra correr atrás de bola e fugir da polícia
Um dia ainda sou notícia (Se liga aí,hein)
Dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus não dá
Como é que vai ficar, ó nega?
"à Deus dará", "á Deus dará"
Diz que deu
Diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus negar
Eu vo me indignar e chega
Deus dará
Deus dará
Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio
Pele e osso simplesmente, quase sem recheio
Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio
Eu dou porrada à 3x4 e nem me despenteio
Porque eu já tô de saco cheio.
CÁSSIA ELLER - Partido Alto

sexta-feira, 12 de julho de 2013

quarta-feira, 10 de julho de 2013

terça-feira, 9 de julho de 2013

AMAR


Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 8 de julho de 2013

PRAÇA DO COMÉRCIO - Coimbra


Casas do fim do dia solarengo
Saudade da sua beleza que me cansa
e me mente
e se mantém sempre serena
como se tivesse acabado de acordar

E as palavras todas que ficaram por dizer
transbordaram
no meio da praça
onde estas casas me mentem
e o resto do mundo é apenas figurante
desta cena

onde penteias os cabelos com os dedos
e sorris envergonhada
... nada
só te estou admirando
como se tivesse acabado de acordar

domingo, 7 de julho de 2013

A CARROÇA VAZIA


A Carroça Vazia

Certa manhã o meu pai, muito sábio, convidou-me a dar um passeio no bosque.
Deteve-se subitamente numa clareira e perguntou-me:
- Além dos pássaros, ouves mais alguma coisa?
Apurei os ouvidos e respondi:
Estou a ouvir o barulho de uma carroça.
- Isso mesmo, disse o meu pai, de uma carroça vazia.
Perguntei-lhe:
- Como sabe que está vazia, se ainda a não vimos?
- Ora, é fácil! Quanto mais vazia está a carroça, maior é o barulho que faz.
Cresci e hoje, já adulto, quando vejo uma pessoa a falar demais, aos gritos, tratando o próximo com absoluta falta de respeito, prepotente, interrompendo toda a gente, a querer demonstrar que só ele é dono da verdade, tenho a impressão de ouvir a voz do meu pai a dizer:
- Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que faz!

(Autor desconhecido - Retirado de um PPS)

sábado, 6 de julho de 2013

SEMPRE COM A CASA ÀS COSTAS


Sou de todos os lugares
e não pertenço a nenhum
Passeio devagar
para assim não escorregar
no granito do povoado
onde as sombras me protegem

Devagar eu vou ao longe
sem pressas
nem velocidades
com a minha casa às costas
faço parte da paisagem

Caracol
Sou caracol
Com os corninhos ao sol

sexta-feira, 5 de julho de 2013

quinta-feira, 4 de julho de 2013

QUEM SOU EU, afinal?


Chegaram à baía os galeões 
Com as sete Princesas que morreram. 
Regatas de luar não se correram... 
As bandeiras velaram-se, orações... 

Detive-me na ponte, debruçado, 
Mas a ponte era falsa - e derradeira. 
Segui no cais. O cais era abaulado, 
Cais fingido sem mar à sua beira... 

- Por sôbre o que Eu não sou há grandes pontes 
Que um outro, só metade, quer passar 
Em miragens de falsos horizontes - 
Um outro que eu não posso acorrentar... 

Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A POESIA É UMA PÁ DE MUITAS FORMAS



A solução para tudo deveria estar na poesia. Não na fuga, no êxodo de si e da decisão, mas no espaço que ela abre no mundo. A poesia é uma pá de muitas formas: suave, áspera, metálica, com desenhos na ferrugem. Serve para nos levar da confusão à luz. Quem decide o destino dos nossos impostos, da educação dos nossos, da forma que o país que habitamos poderia tomar, no curto prazo, deveria ser escolhido pela via poética. Ou seja, alguém que acreditasse na possibilidade de o Homem se transcender. Alguém que quisesse levar o seu povo mais longe, pela multiplicação da riqueza que cada pessoa carrega...
Em vez disso, vamos, por medo, buscar o seu contrário: os medíocres que nos asseguram que só com passinhos de beata se chega ao céu, os manipuladores que garantem só haver uma forma de fazer as coisas, os mais reles de entre nós, de quem a Beleza e a Bondade se riram, porque não acreditamos que o Melhor possa triunfar. Porque raramente acreditamos no melhor que há em nós. E queremos ver um espelho disso mesmo: o triunfo seguro do mais básico.

via facebook

A PONTE POR BAIXO DA PONTE


A ponte une e espera por quem ali passa
sossegada
desperta durante a madrugada
com os passos dos caminhantes perdidos
observa
a companheira afastada que trepida
movimentada 

A ponte une e espera por quem ali passa
e a destrói
porque os heróis deixaram de existir
e a dor é mais forte que a esperança
nestes dias cansados




terça-feira, 2 de julho de 2013

O PASTOR


Pastor do Monte, Tão Longe de MimPastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas 
Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha? 
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te? 
Não, nem a ti nem a mim, pastor. 
Pertence só à felicidade e à paz. 
Nem tu a tens, porque não sabes que a tens. 
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho. 
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol, 
Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas 
noutra cousa indiferentemente, 
E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 1 de julho de 2013

...De FARDAS NOVAS VEM O SOLIDÓ



Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.
Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!
Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!
Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

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