
Senhor ministro:
Como
sabe, uma carta aberta é um recurso retórico. Uso-o, agora que se
cumpre um ano sobre a sua tomada de posse, para lhe manifestar
indignação pelas opções erradas que vem tomando e fazem de si um simples
predador do futuro da escola pública. Se se sentir injustiçado com a
argumentação que se segue, tenha a coragem de marcar o contraditório, a
que não me furto. Por uma vez, saia do conforto dos seus indefectíveis,
porque é pena que nenhuma televisão o tenha confrontado, ainda, com
alguém que lhe dissesse, na cara, o que a verdade reclama.
Comecemos
pelo programa de Governo a que pertence. Sob a epígrafe ?Confiança,
Responsabilidade, Abertura?, garantia-nos que ?? nada se fará sem que se
firme um pacto de confiança entre o Governo e os portugueses ? ? e
asseverava, logo de seguida, que desenvolveria connosco uma ?relação
adulta? (página 3). E que outra relação, senão adulta, seria admissível?
O que se seguiu foi violento, mas esclarecedor. O homem que havia
interrogado o país sobre a continuidade de um primeiro-ministro que
mentia, referindo-se a Sócrates, rápido se revelou mais mentiroso que o
antecessor. E o senhor foi igualmente célere em esquecer tudo o que
tinha afirmado enquanto crítico do sistema. Não me refiro ao que
escreveu e disse quando era membro da Comissão Permanente do Conselho
Nacional da UDP. Falo daquilo que defendia no ?Plano Inclinado?, pouco
tempo antes de ser ministro. Ambos, Passos Coelho e o senhor,
rapidamente me reconduziram a Torga, que parafraseio: não há
entendimento possível entre nós; separa-nos um fosso da largura da
verdade; ouvir-vos é ouvir papagaios insinceros.





