quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Vamos a ver o que nos aguarda até ao Natal...

A desagregação do "Castelo Encantado" da Educação deste País lá vai continuando, carta a carta, a ruir pela base que o sustenta!

Não são só os colegas que se vão assumindo contentes ( e tristes ao mesmo tempo, mas isso é outra conversa! ) ao abandonarem o "barco", antecipando as suas reformas!


Não são só os colegas que se vão mantendo ( e a que custos pessoais ! ) em situações de atestado médico até que a essa bendita reforma lhes seja finalmente publicada em D.R..


Não são só as toneladas e toneladas de papel e as toneladas e toneladas de enleadas e inenarráveis grelhas que servem a pseudo-cosmética da futura Excelência Educativa.


Não são só as mães e pais das crianças e jovens deste País que permanecem bastante desconhecedores da Verdadeira Hecatombe Educativa para onde atiraram os docentes dos seus educandos.


Não são só já as muitas "doenças" de alguns "colegas" que, na Direcção de escolas por este País fora, começaram a ser afectados por perigosos tiques de autoritarismo e de surdez, considerando como válidas apenas as suas próprias opiniões.


Não são só as horas que na semana de cada docente se consomem nas escolas em estéreis reuniões que se multiplicam como virús informáticos, mais as horas que se contabilizam nas aulas de substituição de colegas, nas sessões de apoios educativos, nas salas de estudo abertas, fechadas ou com tecto de abrir, nas preparações e planificações de dias de paragem, dos clubes e projectos educativos, nas mesas eleitorais, nas bibliotecas, nos CRIE, PNL, PNM, CNO, EFA, CEFA, PAA, PAAA, PCT, PEE, PEAE, PlatMOODLE, SALA TIC.... ( e seguramente muitas ainda aqui me faltaram enunciar )...

MAS AFINAL DE CONTAS ONDE ESTÁ O TEMPO QUE NECESSITAMOS PARA PREPARAR DEVIDAMENTE AS AULAS A LECCIONAR, PARA AS LECCIONARMOS E PARA AVALIARMOS COM A DEVIDA SERENIDADE E RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL O TRABALHO DOS NOSSOS ALUNOS????????? ONDE, PERGUNTO NOVAMENTE???


Esse tempo, aquele que está no Núcleo da nossa actividade profissional, é depois dado DE BORLA, em casa, quantas e quantas vezes pela madrugada dentro, pelos inúmeros fins-de-semana dedicados a essa nobre função de ENSINAR!


Para finalizar esta já longa "missiva", eis que aos professores serviram numa "Bandeja Dourada" esta catastrófica AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO DO DOCENTE que, para muitos, irá consumir a quase totalidade das suas preocupações, deixando-os desorientados quanto ao RUMO inicial da sua função.


PERGUNTO:

Em que horas das suas semanas de trabalho irão os colegas avaliadores avaliar os seus outros colegas de trabalho?


Em que horas das suas semanas de trabalho irão os profissionais docentes conseguir decifrar as CENTENAS!!!!!, repito CENTENAS!!! de variáveis, de pontos, de alíneas, de itens e de mais itens em grelhas alucinantes da sua AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO, e que parecem só ter um único Objectivo: o de Enlouquecer e de levar ao estado de Total e completa Insanidade Mental aqueles que se preparam para atacar esta Fera pelos Cornos!


Pela saúde do Nosso Sistema de Ensino, dos nossos Alunos e das Nossas Famílias, façamos parar esta BARBARIDADE, antes que tudo aquilo que reste não passe de mera areia seca pronta a ser soprada e arrastada pelos ventos Tresloucados destes Nossos Dirigentes Políticos!


O tempo é já bem Curto...
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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Como é possível ser professor assim?


O decreto-lei 104/2008 de 24 de Junho destina-se a quem?

Quem são os grandes beneficiados com este concurso especial?
Quem passa a ter acesso à carreira titular, sem que estivesse a dar aulas?
Uma resposta.... Aliás, duas: Sindicalistas e políticos.

Se alguém tiver uma leitura diferente, que explique, por favor.
E que expliquem também porque não é ventilada
esta vergonha...<= clicar para abrir a vergonha!

Eu não consigo ser professor quando as principais prioridades desta profissão estão completamente adulteradas e a caminho de uma aniquilação total.
E o mais incrível de toda esta situação é que se continua a falar de GRELHAS!!!
E o mais incrível é que já se impedem crianças de conviver de forma socialmente livre nos espaços dos recintos escolares. Qualquer dia ainda são apanhados aos beijos, esses malvados!!!

O copo está mais do que transbordado!

Este País não é nem para velhos, nem para novos, nem para quem já atingiu a meia-idade!
Este País caminha hoje a passos largos para uma CRISE EDUCATIVA TÃO GIGANTESCA E TÃO GRAVE que irá seguramente demorar muitas décadas para o conseguir reabilitar.
A todos se vai vendendo a crise financeira como a mãe de todos os problemas.

Neste momento a Mãe de todos os problemas e dos muitos anos que se seguirão, é a COMPLETA E TOTALMENTE AUTISTA VISÃO QUE OS NOSSOS GOVERNANTES POSSUEM ACERCA DA EDUCAÇÃO.

Neste momento queimam-se e abatem-se todas as árvores para, segundo eles, obter oxigénio!

Estamos conversados!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

E se fôr Verdade? Iria ter cá uma piada!

"A Simplificação - Primeiro Passo

Já se diz por aí, nos "mentideros", que ontem reuniu o Conselho das Escolas com toda a equipa ministerial: Maria de Lurdes Rodrigues, Valter "Excesso Grave de Faltas" Lemos e o Jorge "Sinistro" Pedreira. Ainda não tive confirmação se o Engº esteve presente. Pode ser que ...mais logo. A grande novidade da sessão de "informações" (até no Magalhães se falou) foi sobre a avaliação dos professores. Parece que vai ser centralizada através de uma aplicação na internet. Vai fazer-se tudo online?!?! Estão os professores preocupados com as metas, os objectivos mínimos e as notas máximas... Calma! Ainda têm tempo. Aguardem pela aplicação... Pensavam os professores, erradamente, que se ia manter o modelo de avaliação; Culpabilizavam os sindicatos por se terem comprometido com um mau acordo...Nada disso! A Ministra da Educação, afinal não é assim tão má para os professores. No momento em que todos estavam a desesperar com as grelhas, os objectivos e todas as outras fatalidades , repito, fatalidades, a ilustre Ministra da Educação de Portugal foi ao Parlamento das Escolas anunciar um modelo simplificado: A Avaliação pela Internet!
Modelo simplificado de Avaliação de Desempenho Docente Pela Internet 2008/2009
1. Há uma "aplicação" centralizada na DGRHE para se aplicar o modelo
2. Os professores inscrevem-se na "aplicação" tal qual para os concursos, com login e password
3. É-lhes colocado um chip informático de identificação
4. Os avaliadores, já chipados na qualidade de avaliados, avaliam também pela internet
5. A Big Mother controla todo o processo, verificando da legalidade, das notas que cada um dá e que cada um obtém, dos objectivos e tudo o mais...
6. No fim do processo, imprimem-se as fichas e... já está.

A menos que haja surpresas, não demorará muito a que os professores estejam todos com um bonita trelinha (electrónica, claro) nos seus ilustres pescoços."
repito, atenção "E se fôr verdade"????

São tantas que já nem há palavras

"Voz incómoda" deixa avaliação numa fase crítica (DN)

Professores. Chefe da Comissão sai após 5 meses Conceição Castro Ramos aposenta-se quando se avaliam 140 mil A presidente do Conselho Científico para a Avaliação dos Professores (CCAP), estrutura que supervisiona todo o processo de análise e classificação do desempenho, aposentou-se. Uma decisão surpreendente, por acontecer precisamente numa altura em que as escolas estão a generalizar a avaliação a todos os 140 mil profissionais da área.Conceição Castro Ramos, nomeada para o cargo pela ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, no final de Novembro de 2007, tomou posse já a 21 de Abril deste ano, acabando por deixar as funções ao fim de pouco mais de cinco meses.Contactado pelo DN, o Ministério da Educação limitou-se a confirmar a saída da especialista e a informar que "está em curso" o processo de preenchimento do cargo. Já Mário Nogueira, secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), não escondeu alguma surpresa com a decisão: "É no mínimo estranho que, tendo tomado posse há tão pouco tempo, a doutora Conceição Castro Ramos não tenha desejado, pelo menos, acompanhar o processo até ao final do ano lectivo". Fazia críticas "incómodas" (...). DN.

A saída de Conceição Castro Ramos do CCAP foi comentada em alguns blogues: A Sinistra Ministra, A Educação do meu Umbigo e Movimento Mobilização e Unidade dos Professores

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

SEA ( não, não é MAR in english )


A hora que tenho para, supostamente, gerir uma sala de estudo aberta SEA ( não, não é MAR in english ), estava pois, com a sala aberta, e vai daí entra-me o 8ºE por lá dentro, toda a turma, com um papelinho retirado da Net com o plano de aula. Tipo, aqui vimos nós prof., dê lá agora uma substituição a Inglês nestes 45 minutos.

Este abuso é ou não é uma pérola! Os professores com sala de estudo aberta, NÃO ESTÃO EM SUBSTITUIÇÃO.

Não são, efectivamente, chamados para ir a uma sala promover a substituição. São OS ALUNOS QUE SE DESLOCAM ATÉ À SALA PARA TER "ESTUDO ABERTO" COM BASE NUM PLANO DE AULA DO DOCENTE AUSENTE".

Esta tinha de relatar. Até me parece que os meninos gostaram do meu sotaque britânico...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Uma aula virada para o passado

Hoje, com os meus alunos de Teatro do 9ºano, foi proposto um exercício em que se recriasse o passado pré-histórico.


imagem do filme "A guerra do fogo" de Jean Jacques Annaud
Naquele tempo, longínquos 25.ooo anos atrás, os nossos avós Homo Sapiens procuravam as explicações para grande parte das suas dúvidas. Faziam-no pintando o interior das grutas onde se abrigavam, observando a redonda lua nos céus, questionando o porquê dos relâmpagos e das tempestades, procurando a resposta ao facto, de às suas companheiras, crescerem as barrigas e delas sairem pequenos seres barulhentos em tudo parecidos com eles, mas bem mais frágeis.


O que os meus alunos conseguiram na aula de hoje foi viajar até essa época
  • Cataram-se os piolhos que fustigavam as cabeleiras eriçadas.

  • Experimentaram-se sons, fonemas, balbuciaram-se palavras sem aparente sentido.

  • Agitaram-se os braços e as mãos na procura de gestos que ajudassem ao entendimento e no processo de comunicação

  • Sujaram-se as mãos com sangue e poeiras e todo o tipo de outros detritos na procura de obter pigmentos que permitissem pintar ou deixar marcas nas rochas e nas paredes das grutas

  • Procurou-se por comida, que se partilhava quando se tinha, ou os deixava esfomeados se não se encontrava

  • Aconteceram pequenas lutas, ora em situações de normal brincadeira, ora outras, um pouco mais musculadas, na procura de marcação de território e de poder

  • Procuraram-se descobrir ritmos compassados, com dinâmicas quase musicais

  • Sentiram-se e surgiram situações de primeiras questões relacionadas com o poder da criação e domínio da produção do fogo

  • Não se percebia porque cai a água do céu

  • Alguns dentes perdidos ou caídos eram utilizados, depois, em objectos de adorno pessoal

  • Criaram-se dinâmicas de interacção social, acabando toda a turma no final da aula a simular uma noite de descanso no abrigo de uma gruta. Dormiram juntos, aconchegados, para assim se protegerem do intenso frio glaciar de então

E todo este passeio ao passado dos nossos avós, realizado em noventa mágicos minutos de uma sessão de Oficina de Teatro com os meus fantásticos alunos do 9ºE.

domingo, 21 de setembro de 2008

Até o Pinóquio, que é de pau, conseguiu dar cabo dos fios e passar a ser gente de carne e osso...

Nestes últimos dias tenho dado conta de colegas a tratar da sua transformação em marionetas, quais filhos pródigos de um estranho Gepetto que os hipnotiza sem piedade.
Será este o futuro que desejamos para os professores deste País?
Nesta profissão tão nobre que abraçei, damos todos conta, dia após dia, da agonia em que a classe se vai deixando enredar:
  • pagam acções de formação
  • enchem grelhas e grelhas de planificações assombradas e hiper-perfeitas
  • tornam-se mega fantásticos técnicos especializados em Tecnologias de informação
  • arriscam multas de trânsitos para chegar a horas ( com o stress até chegam antes da hora, pois o cansaço e uma certa loucura Hollywoodesca toma já conta destas mentes )
  • desconhecem aqueles adultos de 21 e 18 anos que tinham lá em casa a jantar ( e que eram os seus próprios filhos )
  • passam cinco ou seis horas em reuniões de estruturas que reunem mais de trinta vezes por ano, e ainda se sentem com forças para intervir...
  • procuram tesouros fantásticos chamados "permutas" para puderem dar assistência a familiares doentes, ir a consultas médicas, audiências em tribunal, funerais, serem humanos e terem direito a qualquer outro imprevisto ( sim, por vezes acontecem imprevistos aos professores que nem mesmo eles conseguem antecipar... )
  • adquirem datashows para não serem confrontados com a impossibilidade de utilização dessa preciosidade pedagógica, por outro qualquer colega de trabalho ter tido a mesmíssima ideia ( sei de uns à venda por cerca de 309 Euros, estão mais em conta e já tem IVA )
  • começam a falar de coisas muito bizarras uns com os outros, mesmo, mesmo muito bizarras, como, por exemplo: "já leste o blog da Leonor Alves? Tem lá tudo o que é preciso para a avaliação de desempenho! E está muito arrumadinho. Tem mais de 50 documentos essênciais para a Avaliação de desempenho!
Já devem ter percebido a ideia.

Eu vou tentar continuar a ser o Professor que sempre fui.
Acreditem que é cada vez mais complicado, pois a Loucura que se vai instalando é igual à do filme Voando Sobre um Ninho de Cucos. Prefiro a arte do Milos Forman!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

"Antes que parta a cara a alguém..."

E que telefonem ao meu marido a dizerem:
-" a sua mulher vai a caminho da prisão..."
A escola não é uma fábrica de quadradinhos, é um lugar onde existem pessoas!

É UM LUGAR ONDE EXISTEM PESSOAS...."

professora muito importante!!!!!
que se vai embora
.
Vai-se embora com pena, porque os alunos ainda lhe vão dizendo:
- A professora, para nós, é como se fosse da nossa família! Uma carinhosa avó que nos ensina, berra, grita... e RI!!!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Início de Ano Lectivo

Bem-vindos sejam todos ao novo ano lectivo 2008 - 2009.


Saudações a todos os protagonistas de mais um novo ano escolar.

A tarefa de quem ensina e de quem é ensinado torna-se cada vez mais complexa e desgastante.
As exigências de alegada "excelência", preconizada por uma Sociedade comandada por valores de meritocracia, começa a criar as raízes para que as pessoas se tornem cada vez mais individualistas e preocupadas com as questões secundárias na construção do seu carácter e da sua formação!
Aos professores de hoje, exige-se ensinar, educar mas, acima de tudo, organizar e orientar as ideias nos alunos para que estes se tornem verdadeiros cidadãos, conscientes da sua imensa capacidade em atingirem o objectivo supremo que todos nós, enquanto seres humanos, deveriamos procurar atingir:
A capacidade de sermos Felizes!

Para todos aqueles que iniciam mais uma etapa na construção do futuro do nosso planeta, façam o favor de ser FELIZES!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

4ª Mostra de Teatro escolar - Coimbra




Os meninos do 8ºE, em representação da Escola Eugénio de Castro, apresentaram de forma brilhante a peça "entrem, disse a avó", na quarta mostra de teatro escolar de Coimbra. Foi na passada terça-feira, dia 27 de Maio, pelas 16 horas, que os colegas do colégio São Teotónio assistiram à peça. É esse o espírito desta mostra de teatro. Mostrar e discutir, com os colegas das outras escolas, os trabalhos que fomos encenando e produzindo ao longo do ano lectivo, quer na disciplina de oficina de teatro, quer nos clubes de teatro das escolas.

Até para o ano, para a 5ª mostra de teatro...
B R A V O !!!!!!!!!
ver notícias aqui => NOTÍCIA

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Texto para os alunos do 8ºE

Aqui vos deixo a adaptação para texto dramático do conto de Possidónio Cachapa - "ENTREM, DISSE A AVÓ".


Façam a sua leitura pois vamos ter pouco tempo para o ensaiar antes da grande estreia mais para o final do mês ...
Até para a semana!

CLICA AQUI => "Entrem, disse a Avó"

terça-feira, 29 de abril de 2008

Lembrei-me, nestes tempos agitados que vivemos, desta Alegoria! Vá-se lá saber porquê.

Estas paredes já ardem de tanta sombra nelas projectada! (*)


Reprodução de documento publicado originalmente em http://www.terravista.pt/PortoSanto/1494/Il_re_ed.html

A Ilusão e a Realidade da Educação
Um estudo da Alegoria da Caverna de Platão (Livro VII da República)


Vitor Cardoso, 1997


Introdução

Escrita por Platão na sua fase da maturidade (Gomes, Pinharanda), A República é o maior dos seus diálogos, com excepção das Leis, e certamente o mais importante (McClintock, 1968), constituindo um dos marcos fundamentais do pensamento ocidental.

Platão começa este longo diálogo por discutir a questão da justiça, do que é e não justo, para a identificar com o bem. Justiça para Platão é, pois, fazer o bem. Mas como distinguir o bem do mal ? O que é justo do injusto ? A verdade da mentira ? O real das "sombras" ? Na discussão desta difícil problemática a visceral antipatia de Platão pelos sofistas quase se abate: ele acaba por reconhecer que os sofistas, em vez de corruptores do povo, são a própria imagem do cidadão comum (Jowett, 1901).

Se generalizadamente é assim, então parece não haver esperança. Mas ... talvez haja uma saída... pela educação!

Fig. 1 - A caverna de Platão (Soccio, 1995)

É na alegoria da caverna que Platão vai por um lado evidenciar as razões por que há tanta confusão acerca da questão da justiça - e de muitas outras coisas - e por outro justificar a necessidade da educação na criação de um novo cidadão, com o qual será possível construir um mundo melhor e mais justo: a República.

No texto que se segue vamos analisar esta alegoria com os "olhos de hoje", retirando-a do seu contexto na Grécia antiga de há 2.400 anos para a colocar na sociedade da informação. Veremos se passados mais de vinte e quatro séculos após a sua concepção, a obra de Platão continua "viva e com todo o tipo de relevâncias para a vida contemporânea" (McClintock, 1968).

Vamos correr vários riscos. Mal interpretar o que foi escrito somente para "acumular para si mesmo um tesouro de rememorações para a velhice" (1) é o primeiro.

Outro risco, pelo menos, é o de não compreendermos suficientemente o actual momento civilizacional. Ainda nos encontramos na fase em que as tremendas e fascinantes novas possibilidades da sociedade da informação nos "rebentam" mais vezes nas mãos do que nos alvos, ainda insuficientemente identificados.

A luz ao fundo da caverna

Platão resume nesta alegoria a sua visão de uma humanidade ignorante, prisioneira das sensações, do imediatismo e inconsciente da sua limitada perspectiva. Os raros privilegiados que conseguem escapar das amarras dessa "caverna", através de uma longa e difícil caminhada intelectual vão descobrindo outras dimensões mais completas e reais - primeiro os objectos e a fogueira - e bem lá no fim, já fora da caverna, encontrarão a verdadeira realidade, a origem e a explicação de tudo o que existe (2).

A concepção arquitectural e cénica da caverna apresentada no início do livro VII da República não é absolutamente consensual. Talvez devido às "nuances" das diferentes traduções do grego para as línguas vivas actuais, ou por outras razões, encontrámos algumas diferenças na "visualização" que alguns autores fazem da alegoria da caverna. A que nos pareceu particularmente "diferente" está publicada na mais conceituada tradução portuguesa da República de Platão, da Fundação Calouste Gulbenkian. A tradutora, na introdução que faz à obra (Pereira, Maria H. R, 1976), interpreta assim a cena:

"Homens algemados de pernas e pescoços desde a infância, numa caverna, e voltados contra a abertura da mesma, por onde entra a luz de uma fogueira acesa no exterior, não conhecem da realidade senão as sombras das figuras que passam, projectadas na parede, e os ecos das suas vozes."

Sublinhámos a parte da interpretação que nos parece menos sugestiva. Embora Platão nunca diga taxativamente que a fogueira está dentro da caverna, todo o diálogo assim o dá a entender. De resto não parece fazer muito sentido que uma fogueira acesa no exterior, iluminado pelo sol, possa projectar luz sobrepondo-se à daquele. Embora à primeira vista pareça um pormenor isso pode alterar alguns aspectos substanciais da análise.

A caverna é a metáfora para o nosso mundo físico: lá dentro estamos nós, a fogueira também e os outros objectos (fig.1). Platão não nega que haja alguma luz nas primeiras etapas da nossa "libertação", admite até que possamos vislumbrar alguns objectos reais à luz da fogueira. Mas para ele a verdadeira luz está no exterior, não é a luz vacilante da fogueira, mas a luz fulgurante do sol: é a sua metáfora para o mundo das ideias.

A ilusão e a realidade da Educação

A caverna de Platão, uma das mais fascinantes e assustadoras metáforas do pensamento ocidental, é, entre outros vectores possíveis de análise, uma visão alegórica sobre a educação e a libertação, mas também, em última análise, uma revelação do potencial de dominação e opressão que a educação pode ter sobre o ser humano.

Como os prisioneiros nem sequer podem ver o seu próprio corpo ou o das outras pessoas, inevitavelmente confundem as sombras e os ecos reflectidos na parede à sua frente com a própria realidade, pois não conhecem outra (3).

Que situação sem nexo, diremos nós. Como é que alguém pode ser tão estúpido e parvo que se deixe enganar por sombras numa parede? (4)

Ao seu interlocutor no diálogo, Gláucon, que lhe faz uma observação semelhante, Platão responde:

"Eles são como nós !"

A situação dos prisioneiros na caverna retrata, para Platão, precisamente a condição humana. Nós nascemos numa confortável escravatura de ignorância e é extremamente difícil, sem ajuda, tomar consciência dela e distinguir a realidade (a verdade) da ilusão. E vai mais longe, afirmando que a maioria de nós se sente tão confortável na sua vidinha ignorante que não quer sequer mudar.

Se alguém agarrar no prisioneiro, diz Platão, e o voltar para os próprios objectos, de que ele só conhece as sombras, sentirá dores no corpo muito tempo imobilizado e o deslumbramento das figuras em contraluz que o cega temporariamente impedi-lo-á de ver direito qualquer coisa, até as próprias sombras que até aí ele podia ver e eram a única coisa que tinha. Neste estado de confusão e ... martírio ele vai querer voltar à segurança das amarras e à simplicidade das sombras a que estava habituado.

Este desejo de regresso à escravidão da ignorância - esta resistência à mudança, diríamos hoje - é tão forte, afirma Platão, que o prisioneiro tem mesmo de ser arrastado à força para fora da caverna e para a verdadeira realidade. O sofrimento físico e a angústia são consideráveis, mas é a única maneira, diz Platão. Uma vez fora da caverna ele experimentará inicialmente os mesmos problemas de deslumbramento, mas pouco a pouco ir-se-á habituando à luz do dia e começará a ver as coisas à sua volta e a descobrir a verdadeira realidade. Com o tempo até o próprio sol será objecto da sua atenção e compreensão.

Embora esta odisseia do conhecimento não seja tarefa fácil, pensa Platão, ela faz parte do ser Homem. Todos desejamos o conforto e a segurança de um mundo simples com poucos problemas, de solução fácil, compreensiva, universalmente aceite e aparentemente correcta, como nesse "paraíso original" dos prisioneiros. Mas esta situação é ilusória e, se é paraíso, bem ... é o paraíso dos tolos!

A condição humana é inicialmente de auto-escravatura que as pessoas confundem com liberdade. Na alegoria as pessoas (os prisioneiros) pensam que são livres; pensam que compreendem o seu mundo. Nós que os observamos de fora podemos ver quão enganados estão, mas eles, para nosso espanto, agarram-se desesperadamente às suas amarras convencidos de que o que experimentam é a própria realidade.

A educação é, em Platão, um processo lento e doloroso em que se vão expondo as pessoas à verdade. O primeiro passo é o reconhecimento da natureza incompleta deste mundo de ilusões. No contexto das suas limitações iniciais os prisioneiros tinham uma forma de olhar para o mundo e, pelo menos para eles, esta forma de ver a realidade fazia sentido. Mas pouco a pouco, e na medida em que são libertados e levados a ver o mundo fora da caverna, com mais luz e com outra luz, vão percebendo que esta nova forma de ver tem ainda mais sentido. Tornam-se então seres mais conscientes do mundo que os rodeia.

Para Platão educação é liberdade. A experiência da educação liberta-nos da condição de ignorância (5). É uma das mensagens bonitas que Platão nos transmite com esta alegoria.

Há um outro lado mais negro, menos visível na alegoria: o potencial de dominação e opressão de umas pessoas por outras que a educação pode pretender legitimar. O prisioneiro, quando inicialmente é libertado, fica confuso e quer regressar à sua condição anterior, mas já não pode. É arrancado dali à força e arrastado até à luz do sol.

Quem teria interesse nisso ? Quem seria capaz, por força, persuasão ou influência de levar outros para fora da caverna ? Essa pessoa tinha de saber qual o caminho a seguir para os levar em direcção à luz. Subentendendo Platão, só podia (ou devia) ser um filósofo.

É a ideia do messias, com tudo o que tem de bom (terá ?) e de mau ! Todos os grandes iluminados têm em comum esse objectivo: querem educar o povo, levá-lo a ver a verdade, a sua verdade, à força se necessário. Até inventaram a educação obrigatória ! Nem os actuais regimes democráticos são excepção.

Os actuais sistemas educacionais estão , aparentemente, concebidos para que entremos cada um de nós, com a sua verdade e saiamos todos com a verdade do mestre (ou do sistema)!

Este potencial de dominação e opressão que a educação pode ter sobre o ser humano é uma crítica importante que podemos fazer ao platonismo. Mas será justo fazê-la ao próprio Platão ?

Pensamos que ele estava consciente desse problema e nos procurou alertar para ele:

"Educação não é o que alguns apregoam que ela é... introduzir ciência numa alma em que ela não existe, como se introduzissem a vista em olhos cegos."

Platão insiste que educar não é "impingir" ciência. É essencialmente a arte de motivar para aprender ("a arte desse desejo"), "dar-lhe os meios para isso"(5) e ser companheiro de percurso. Não é transformar a carne em salsichas, é motivá-la a transformar-se num organismo vivo, ele saberá depois ...encontrar o divino.

Estamos conscientes de que há alguns aspectos contraditórios nesta argumentação, mas pensamos que o próprio Platão não respeita aqui o princípio da não-contradição (é se calhar da própria natureza da educação não o respeitar). Nem sequer resiste a apresentar receitas sobre os conteúdos curriculares... mas pensamos que aqui o nosso comentário tem de ser tão circunstancial como o de um médico de hoje que analisa uma receita de Hipócrates para tratar uma determinada doença: esta receita já não se aplica!

NOTAS

1 - Fedro, pág. 129 edição da Galeria Panorama.

2 - Essa realidade é Deus. Para Platão o fim do caminho, verdadeiramente, nunca se atinge nesta existência terrestre, apenas se pode chegar muito perto e vislumbrá-lo. Só do outro lado, na morte, isso pode ser plenamente conseguido.

3 - Não deixa de ser interessante notar que a forma como Platão coloca a fogueira - num plano elevado e com um pequeno muro à frente - nos permite conjecturar que a luz nunca atinge os prisioneiros por trás, passando acima das suas cabeças. Este facto impede-os de verem a sua própria sombra reflectida na parede e a possibilidade de terem algum tipo de interactividade com ela que lhes permitiria estabelecer uma ponte entre a realidade e as sombras na parede.

4 - Não resistimos à ideia de referir os artistas mágicos, que sempre fascinaram as plateias com as suas realizações aparentemente impossíveis, levando por vezes as pessoas a acreditar que eles têm poderes sobrenaturais. Com as novas tecnologias a magia tornou-se uma verdadeira ciência das ilusões e a realidade virtual ... corre o risco de tornar o mundo num palco permanente de magia.

5 - Para Platão já nascemos com a sabedoria, apenas "vemos mal", por isso ignoramos que já a temos (é a teoria da reminiscência, uma questão controversa que não cabe no âmbito deste trabalho).

Referências

CAVE Overview (1996) - In


Gomes, Pinharanda - Nota bibliográfica à sua tradução do Fedro de Platão. Lisboa, Galeria Panorama.

Jowett, Benjamin (1901)- Introdução à República de Platão. New York: P. F. Collier & Son. The Colonial Press. In 1995 Institute for Learning Technologies - In

McClintock, Robert (1968) - Prefácio a "The theory of Education in the Republic of Plato" de R.L.Nettleship. Teachers College, Columbia University. In1995 ILT Digital Classics. In


Pereira, Maria H. R. (1976) - Introdução a "A República - Platão". Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.

Platão - A República - Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian. Obra de onde foram retiradas as frases de Platão referidas no texto do presente estudo.

Platão - Fedro . Lisboa, Galeria Panorama.

Soccio, Douglas J.(1995), Archetypes of Wisdom, Belmont, Wadsworth Publishing Co. In Plato's Cave,


Obs.: Todas as páginas da Internet referidas foram consultadas em Janeiro de 1997

Agradecimentos

Embora a responsabilidade pelas eventuais gralhas ou incorrecções pertença exclusivamente a si próprio, o autor pretende registar o seu agradecimento às pessoas abaixo referidas:

o Ao Prof. Doutor. Joaquim Coelho Rosa da ESE João de Deus, pela inspiração deste trabalho.
o Ao Dr. Bartolomeu Valente, pela sua disponibilidade em ler a versão prévia deste texto
o À Drª Vitória G. Martins Cardoso, minha esposa, pela sua preciosa ajuda na correcção e estilo do texto.

Reprodução de documento publicado originalmente em http://www.terravista.pt/PortoSanto/1494/Il_re_ed.html (1978)

Actual source (2005): http://www.univ-ab.pt/~vcardoso

(*)foto do autor deste blog

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Pensar em voz alta...

E se, de repente, nós professores seguissemos os extraordinários exemplos que nos dão os nossos sábios governantes? Estaríamos seguramente todos com ALZHEIMER!!!
Deixo-vos estas palavras para meditar...

"E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!…

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!…
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

(...)

Deste modo ou daquele modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma coisa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora."

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Mas que Profissão é esta nossa??? Acordo??? MAS QUAL ACORDO?? ACORDEMOS MAS É POIS A CORDA JÁ VAI BEM APERTADA NO PESCOÇO DO NOSSO SISTEMA DE ENSINO



Já não é recente este artigo de Santiago Castilho sobre os tempos que vão varrendo com vagas de inóspita insensatez a Educação deste País. Este fim-de-semana ouvi-o com prazer numa entrevista dada na Sic Notícias sobre este "malfadado" acordo cozinhado, segundo as partes, em 7 horas de lume ora brando, ora mais forte....
Os outros, os "Grandes Sábios Conhecedores da Matéria em discussão" ( entenda-se escumalha pseudo-letrada ), deviam com a devida e merecida atenção, ler e ouvir as opiniões de Santiago. Bem-haja!
Aqui presto louvada e merecida homenagem por tudo o que tem escrito e opinado sobre as Políticas Educativas que estes nossos "Políticos" vão urdindo sem Roque nem Rei...

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Encontrei o BLOG de Possidónio Cachapa!


Por mais vidas que vivamos, algumas merecem que passemos a sua Alma pelas Almas de outras vidas. Este é apenas um caminho que vos deixo para conhecerem esta Alma Grande.
POSSIDÓNIO CACHAPA. A não esquecer de conhecer...

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